Na
ilha
Chega
em Havana ainda dormindo e, quando abre os olhos, pensa que está vagando por
alguma rua perpendicular à Avenida Rio Branco: prédios clássicos
mal-conservados, pretos e pretas vagando pelas ruas, sujeira, água turva
roçando o meio-fio e má iluminação. São duas horas da manhã, e, mesmo assim, há
movimento nas vias. Melhor: há movimento nas casas, cujas grades são coladas no
asfalto e as luzes acesas fazem parecer que há algum agito externo. Parado,
as calles movem diante dos seus olhos, como um filme na tela.
Está dentro de um Dodge fabricado em 1957, cor roxa, com dois bancos
horizontais – um na frente e outro atrás – e capacidade para mais ou menos seis
pessoas. Dentro do veículo, recorda que está em Havana, a cidade em que os
carros possuem dois passados possíveis: fabricados antes de 1959 ou origem
russa. A bem da verdade, os carros são mesmo cubanos, autênticos frankesteins que
em pouco preservam a origem – modelos da época de Stalin têm rádio embutido, ar
refrigerado, sistema de som e motor modernos. Apenas a casca é original. A
casca é apenas o que o restou de boa parte de Havana.
Na
manhã do dia seguinte, tem o sono perfurado pela voz de um vendedor de rua.
Grita “tomate! Tomate!”, com pausas entre as sílabas, transformando a palavra
numa oxítona. To-ma-tê! Quase uma ordem, toma-te o tomate, e ainda parece
difícil distinguir o que é sonho e o que é Havana. Acorda com fome, mas não há
comida em casa, e a solução é beber a água da Flórida que está no frigobar,
sair para caminhar e esperar dar a hora do almoço. Não se deve beber gelo de
restaurante, avisa a anfitriã antes de sair. Mojitos quentes?, impossível –
como é fácil aconselhar.
Abre
o portão do prédio e encontra a rua suja, cães com costelas aparentes e pessoas
abrindo suas casas para deixar à vista o pequeno comércio que têm nas salas.
Caminha cem metros em zigue zague, desviando do lixo, dos comerciantes de
frutas e verduras e de cubanos que, ao virem que caminha de óculos escuro, o
identificam como estrangeiro e correm para oferecê-lo qualquer coisa que
estejam vendendo – mesmo que não estejam, na verdade, vendendo nada. Segue a pé
e, num clarão, percebe-se em uma praça ampla, limpa, bordada por prédios
clássicos de cor amarela e recheada de bancos e restaurantes com aspecto
moderno. Está na Europa, e não parece que caminhou, mas que se teletransportou
ao longe. Acordado, raciocina: não é sonho, é Havana. O que dá quase no mesmo.
Enquanto
cruza a praça recebe uma dezena de ofertas de cardápio para almoço. Nega-as
todas, pois tem direção certa: quer chegar ao Malecón, onde pode iniciar sua
caminhada pela orla de um mar sem areia; um mar, para o carioca, totalmente
desprovido de função. Assim como o Rio, Havana nasce do centro e se desenvolve
pelo oceano. A caminhada de Havana Vieja ao começo do Malecón é a mesma que se
faria da Cinelândia ao aterro do Flamengo – do centro histórico ao começo do
mar – enquanto o final da orla Havanera, em Miramar, poderia ser o final das
praias da Zona Sul, no Leblon.
No
Malecón, o movimento dos carros é mínimo: passa um, depois outro e um longo
tempo de silêncio se segue. Um carro, entretanto, faz o barulho de vários. Há
motos, claro, motos com luzes coloridas, típicas de Cuba, e motos com um rabo
lateral, perto do chão, para o caso de se levar outro passageiro. Pensa como
seria legal seguir essa orla toda de bicicleta, mas não sabe o ofício: seu pai,
pouco atlético, não lhe ensinou, decidindo seu destino de sempre andar a pé.
Deveria ser honesto consigo e não culpar seu pai por seu medo de cair.
É
segunda-feira e se surpreende com a quantidade de pessoas nas ruas. Vagam em
bandos, conversam paradas, fumam sozinhas: toda hora parece a hora do café. Há
uma sensação de despropósito no ar, de que os dias são todos iguais e que nada,
absolutamente nada do que é feito hoje terá qualquer impacto no amanhã. Havana
tem mesmo um estado onírico propositado: ninguém quer acordar. No caminho, se
depara com uma fila de pessoas paupérrimas que esperam a retirada do alimento
em algum mercado estatal. Saem, uma de cada vez, com um pão guardado dentro de
um saco de plástico. Um senhor rapidamente se senta no meio-fio, destrói o saco
plástico e devora o pão em questão de segundos. Talvez faça isso todos os dias,
como se fosse um dever.
Sem
direção, aceita descansar em uma praça que surge enquanto passa por uma área mais
afastada da cidade, cujo aspecto residencial quase-condominial faz lembrar a
Barra da Tijuca. Senta-se nos bancos e olha ao redor: com brinquedos avariados
e enferrujados, a praça é estreita e cortada por um gramado cinza, que,
elevado, deixa à sua beira alguns corredores largos e perpendiculares entre si,
por onde algumas crianças se aventuram a jogar futebol. Há uma passagem no meio
da praça – ou a praça fora construída no meio de uma passagem.
São
cinco meninos disputando a bola. Não estão exatamente ali, naqueles corredores
que ele e outros transeuntes enxergam, mas em algum estádio do mundo, talvez o
Camp Nou, pois imitam Messi e Lewandowski, enquanto um diz ser o brasileiro
Raphinha, craque do Barcelona. Sentado, critica a organização dos garotos:
estão em número ímpar e ainda assim usam dois goleiros – deveriam jogar dois
contra dois com apenas um deles na meta. Esquece-se de que olha para uma
fantasia.
Após
certo tempo, decide se juntar a eles: levanta-se, coloca seu óculos escuros no
bolso, olha para as sandálias que dificultarão a performance e caminha até o
quinteto. Com um espanhol de jogador brasileiro recém-chegado ao Barça,
pergunta se pode jogar. Primeiro, olham-no desconfiado, mas quando diz ser do
Brasil, sorriem e passam todos a querer jogar com ele. Há um desejo coletivo de
que se reúnam todos no mesmo time e disputem uma partida de seis contra zero,
que definitivamente acabaria numa vitória acachapante da maioria. Regrado,
insiste na divisão em duas equipes iguais, com três jogadores.
Rola
a bola, e logo vê que são todos desprovidos de qualquer gesto técnico – ou
talvez estejam praticando outro esporte. A pelota corre de um lado para o outro,
não para – bicam-na sem direção e correm atrás; só podem estar pensando que
estão mesmo no Camp Nou. Quando a bola finalmente esbarra em seu pé, decide
brincar de faz de conta: finge que chuta e não chuta; ameaça passar e não
passa; faz que vai driblar e perde a bola para os três adversários que, embaixo
do seu tronco, se transformam em um só para efetuar o desarme e fazer o gol.
Recebe desconfiados olhares de seus parceiros de time, como se dissessem: esse
brasileiro não joga é nada.
Brinca
mais um pouco, faz uns gols, dá passe para outros, diz que o Brasil está
ganhando de Cuba para depois ouvir deles que Cuba virou o jogo. Diverte-se e,
suado após a partida, se despede e resolve retomar a caminhada. No percurso,
lembra-se que, na infância, nunca era ele jogando futebol, mas alguém: sempre
incorporava um jogador do Fluminense, como fez na vez em que Tuta, esforçado
centroavante tricolor, quebrou o nariz e jogou de máscara para protegê-lo. No
dia, como quebrar o próprio nariz e ir ao hospital para colocar uma máscara de
proteção doeria muito, desceu para o play de seu prédio com
uma máscara do Batman que tinha no armário. Em Havana, é preciso conseguir se
transformar no Tuta sempre que quiser.
Após
mais alguns quilômetros, chega, finalmente, ao destino do dia: o cemitério da
cidade. Entra desavisado e logo recebe um aviso da segurança: é preciso pagar
para ver os defuntos. Dá meia-volta, pisa numa sala de madeira escura, de
aspecto burocrático, adornada por quadros tortos e sofás que estão posicionados
de forma randômica em diferentes direções – alguns, inclusive, encontram-se
virados contra a parede. À frente, há uma mesa de madeira em que se lê BURÓ
DE TURISMO e onde, atrás, está uma senhora negra, de óculos e cabelo
preso, que logo sorri ao vê-lo ultrapassar a porta.
Ela
puxa assunto e pergunta de onde vem; diz que do Brasil. A primeira referência
são as novelas, tão amadas pelos cubanos. Avenida Brasil? Sim, claro. Não é
noveleiro, mas leva o papo – Tufão? Tufáo! – e mostra a Adriana Esteves no
google. A senhora, incapaz de separar a atriz do personagem, aponta e diz: é
mala!, querendo dizer que é má, e não que é chata. A conversa dura alguns
minutos e, com sutileza cubana, a senhora a encerra informando que,
infelizmente, cobraria cinco dólares pela visita ao cemitério. Pega a carteira
no bolso e percebe não ter dólares, só pesos cubanos. Pergunta se poderia pagar
em moeda nacional e ela diz que sim. Um dólar compra trezentos pesos, então
pensa que terá que dar a senhora mil e quinhentos pesos cubanos. Antes de
pagar, ela diz: dá-me quinhentos pesos que está certo.
Caminha
pelo cemitério, vai à igreja, finge que reza e rapidamente fica de saco cheio.
Fazer o que ali – corpos debaixo da terra, símbolos religiosos, corvos pairando
–, é preciso alguma abstração para entrar no clima dos lugares, e ninguém quer
entrar no clima de um cemitério. O sol se porá em uma hora; poderia ver o final
do dia na orla, andando rente ao Malecón. Decide retornar por onde veio.
Na
direção da saída, uma senhora bem velha, que está em frente ao túmulo de uma
espécie de santa, murmura-lhe alguma coisa. Não compreende e não quer olhar
para trás – vai que não há senhora alguma? – e segue andando. Dá um passo fora
do cemitério e esbarra em um semáforo de pedestres: as luzes vermelha e verde,
simultaneamente, estão acesas. Olha para trás e a senhora segue lá, corcunda,
de branco, e lhe acena. Assustado, volta o rosto para frente e se surpreende
com apenas o sinal verde aceso. Atravessa.
Do
outro lado, aproveita a esquina para se localizar no mapa e conferir a
carteira, na esperança de ter pesos suficientes para comprar um sorvete.
Encontra uns dólares perdidos, entre os pesos, e lamenta – poderia ter pagado a
mais pela visita –, mas logo se resigna: em Havana, o valor das notas é dado
por quem as recebe. Quinhentos pesos podem ser cinco dólares, um parque de
quinze metros quadrados pode ser o Camp Nou e um pedaço de pão, repetido todos
os dias no desjejum, tem o sabor que quem o come lhe quiser conceder.
Não está na cidade dos sonhos. Está na que se vive sonhando.
Rio de Janeiro, 29 de janeiro de 2025
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