Na Praia
Chego
ao Sul da França, em Nice, e logo me assusto: o caminho para o mar é feito de
pedras, pedras grandes, pedras esteticamente chamativas que poderiam mal
decorar consultórios médicos, e é sob elas que devo colocar meus pés e me
encaminhar ao mar. Pouco agradável. Apesar de ser um caminho não integralmente
doloroso, algumas das pedras mais parecem pedaços de lego soltos no chão que
surpreendem nossos pés – como agulhas incapazes de furar. Quando dou o primeiro
passo fora do lugar, meu pessimismo sussurra-me: que horror é essa praia que é
o cartão de visitas do que chamam de ‘Costa Azul’.
São
nove horas da manhã em Nice, e a praia está vazia. Como o dia se encerra às nove
horas da noite aqui, no verão, não há pressa: as pessoas tomam seus prolongados
cafés da manhã e, nas ruas, o ar é matinal até por volta das duas das tarde. O
dia no verão europeu dura mais, deixando-me saudoso dos tempos de horário de
verão no Brasil quando, mais novo, ficava até oito da noite na praia,
aproveitando o mar do pôr do sol. As férias adultas, penso, são uma tentativa
de se viver novamente, à termo, a juventude.
A
praia vazia é um convite para prestar atenção em quem está ao meu redor: uma
família francesa, assumo que de férias, estende uma canga ao meu lado. O pai,
branco e bobo, coloca seus óculos de mergulho e vai para a água com seus dois
filhos, que o seguem no fenótipo e no jeito. A esposa, magra a ponto de se
ressaltarem os ossos do seu quadril, senta-se na canga e começa a se despir. O
biquini não estava em seu corpo, que chegou à praia coberto por um vestido,
calcinha e sutiã. Questiono a praticidade daquilo, mas não reclamo: ela se
troca por debaixo de uma comprida toalha logo à minha frente. Olho-a com
cuidado, respeitando sua privacidade, mas com um certo ar reverencial: que
delicadeza aquela muda de roupa, na frente de todos, sem um quê sensual explícito
– estou mesmo na Europa.
Vestida
de seu biquini preto, logo se junta ao seu marido e às crianças no mar, e não
escondo que, quando a vejo chegar sorridente, invejo a vida daquele homem. Bela
esposa, filhos contentes, férias anuais no sul francês ou onde mais quiser: a
vida europeia tem isso, a certeza de que o trabalho exerce um papel
complementar na existência, e não é o eixo central de tudo. O que ele ali vive
é dele. Eu escapo.
Passado
certo tempo, resolvo mergulhar. A água, cristalina e num tom de azul que eu não
sei definir, mas que chamo de azul de Nice, é brilhosa, clara, mas densa quando
vista de cima. A cor é única, e penso que poderia ser a cor do par de olhos
daquela esposa que eu observara. Quantas coisas já são ótimas e mesmo assim poderiam
ser melhores.
Não
há ondas no mar, tampouco pessoas muito perto de mim. De olhos fechados,
deito-me sob a água, como se fosse uma cama em estado líquido, e tenho a rara
sensação de estar com a cabeça vazia. De costas para a orla e de frente para o
oceano, tenho, à minha direita, o começo da cidade, que nasce no aeroporto e
vem vindo, como se tivesse sido construída de trás para frente, até chegar na
área mais antiga, a ‘Velha Nice’, localizada no ‘centro’, que fica no outro
extremo espacial, à esquerda. Lá estão construções de outros tempos, com cores
escolhidas: o amarelo e o vermelho são constantes que se harmonizam, dando à
cidade um ar solar no chão.
Após
perto de meia hora, me canso e saio do mar. Gosto de praia, mas não consigo
ficar o dia inteiro fazendo a mesma coisa. É preciso certa rotatividade
cotidiana, múltiplas atividades, meu cérebro se esgota rápido. Ao chegar à
canga estendida sob as pedras, enxugo-me. Sento-me com a ajuda dos braços, e,
ao olhar para a direita, vejo duas jovens moças conversando, deitadas em cima
de suas cangas com design moderno, perto de mim. Miro-as
por algum tempo, mas nada acontece. Decido-me virar para o outro lado da
cidade, com o objetivo de ter, antes de fechar os olhos para um bom descanso, a
imagem da Velha Nice no breu que está prestes a se abrir na minha pupila. Na
frente da paisagem, porém, surge uma mulher, caminhando sozinha por cima das
pedras.
Observo-a
e franzo a testa em surpresa: não parece que seus pés tocam pedras ao encostar
no chão. Se movendo como quem desliza, não se importa com os pedregulhos, que
parecem plumas. Deve ter crescido aqui, penso, pois tudo, no final das contas,
é questão de adaptação. Na verdade, não são como plumas, mas como nuvens:
macias, que devem ser pisoteadas com certo cuidado para não cair. Levanto
meu olhar e vejo seu rosto de traços sutis: quando séria, as maçãs da face se
afunilam com um risco que desliza até o queixo. Quando sorri, suas bochechas
formam covinhas. O cabelo, castanho claro, tem um ensaio de franja mais jogado
à esquerda que equilibra sua testa; uma testa que poderia ser grande demais se
não coberta por aquele corte. Os olhos, bronzeados, assumem o castanho.
Sob
a pele, veste um biquini comportado. Das nádegas, quando se vira de costas para
mim para examinar uma pedra que primeiro ultrapassou desatenta, só vejo o
contorno, amassado por aquele acabamento em forma de "V" barrigudo.
Seu busto está coberto integralmente, e até os ossos de sua clavícula se
escondem por uma espécie de top listrado que se disfarça de biquini. Por cima
do biquini há uma camisa de botão, branca, transparente, que vai até o meio da
canela. Me distraio da roupa, a qual constato num espaço de segundos, e fico
vidrado em seu caminhar, nada intencionalmente sedutor como estou acostumado,
mas tímido, como se a única forma que pudesse se movimentar fosse com vergonha.
No
meio do seu trajeto, o mar vem sorrateiro e a acaricia, gelado, as pernas, o
que a surpreende. Sobe os pés, um de cada vez, e seca a água que os violou com
rapidez, olhando para os lados com vergonha, como se transgredisse; como se a
praia não fosse o lugar adequado para que o mar molhasse suas pernas.
Compreendo, nesse momento, que seu caminhar deslizante é puro medo. Teme
incomodar as pedras enquanto pisa nelas para se locomover, assim como teme que
a água do mar tenha tido seu trajeto interrompido ao encostá-la.
Sem
perceber, se aproxima de mim. Estou escondido embaixo de um guarda-sol vermelho
e branco, uso óculos escuros, estou na parte de trás da cobertura. Na verdade,
estou apenas com a canga. Estou sem camisa, não uso óculos escuros, e não há
‘parte de trás’ onde estou, pois não existe guarda-sol algum. Contagio-me de
sua timidez e fico nervoso ao perceber que meu corpo está ali, sem proteção,
escancarado para ela. Gostaria de estar escondido. Conforme chega mais perto,
consigo perceber novos detalhes de seu corpo: suas pernas e braços são
delicados como galhos de algodão devem ser; há uma pinta pequena acima de seu
umbigo.
Quero
ir até ela, mas temo o hesitar de meus pés nas pedras. Todos os movimentos,
agora, são calculados: eu estou em seu mundo, e ela só pode perceber minha
intrusão quando não houver mais nada a fazer se não me aceitar. Acerto a pedra
com a mão e estou sob meus dois pés, de pé. Olho para o chão para conferir se
estou pisando em solo firme; ela deve estar já na minha frente.
Quando
ergo a cabeça para cima e a viro na direção de velha Nice, não a encontro de
primeira. Deve ter desviado o caminho, pois a maré subiu. Olho um pouco mais
para cima, para a orla. Nada, nem as costas de sua camisa de botão branca.
Começo a pensar se não me levantei para o lado errado, e com pressa giro meu
tronco para a direita, onde dou de cara com as duas moças e a família contente.
Olho
para o mar, pois deve ter mergulhado. A água está completamente vazia, a não
ser por um dos filhos do casal que, sozinho, molha os pés na borda, carregando
um balde na mão. Confuso, deito-me pouso os meus olhos no céu.
Estou,
enfim, na mesma posição de antes.
Acho
que não me mexi. Imóvel, imaginei. E, se imaginei, menti sem falar.
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