Pátio

 

Pátio

Imóvel, no corredor estreito, sob luzes alternadas, aguarda. Passam por ali; passam cães também, cheiram-no, quase o reconhecem, seguem em frente. Não ameaça mover-se. De calça e casaco, faz calor. Protege-se. O suor lhe desce pelas costas. Não é possível saber se espera ou se apenas está. Provavelmente espera, mas não sabe o quê. Cansa. Mete-se pelas escadas. Desce-as em caracol, mas são retas. Sempre dá com a cabeça na parede de um dos lados, e as paredes acabam corrigindo-lhe o rumo. Desce sem parar. Termina quando os degraus terminam.

À sua frente, um corpo. Calça, casaco, botas. Pode-se dizer que há um rosto. Virado para um dos lados, é meio rosto. Está estendido no chão, como se alguém o tivesse colocado e, pelas pontas, esticado até onde aguentasse. Sem ninguém ao redor, abaixa-se, ergue o tronco do corpo, põe-no sentado. O corpo obedece enquanto as mãos o sustentam. Ao largá-lo, estende-se pelo chão novamente. Há um carpete grosso e velho por baixo, com cheiros de anos grudados ali. Cheiros que, agora, juntam-se ao corpo – ou os do corpo juntam-se ao carpete –, formando um aroma antigo e morto.

Abre a grade do prédio e vai à rua. O barulho faz com que queira voltar, mas persiste. Quer voltar; o corpo segue. Caminha e o sol insiste contra sua roupa. O casaco funciona como barreira. Deve estar em algum lugar, o caminho em sua cabeça é claro e se desenha conforme passeia. Vira com convicção, esquerda, direita, direita, direita, esquerda. Reto. Algum lugar ao final daquela rua. Um portão cinza ergue-se à sua frente. Uma barra grossa cruza-o pelo meio. Tenta abri-lo, mas não há reação. Como se não fosse ele, ergue a perna, chuta o portão com uma, depois com a outra, joga os ombros contra ele. Nada acontece. Pode estar no lugar errado, mas sabe que não.

Imóvel, no corredor estreito, sob luzes alternadas, aguarda. Passam por ali; passam cães também, cheiram-no, quase o reconhecem, seguem em frente. Não ameaça mover-se. De calça e casaco, faz calor. Protege-se. O portão cinza abre sem que se mexa a barra que o cruza. Abre pela ponta, como a capa de um livro, e o homem entra. São vários homens, casaco e calça, todos de pé, todos em movimento, todos em um pátio aberto, iluminado pelo céu, mas sozinhos. Ele se junta permanecendo só. Parece que há alguma porta, não é possível ter certeza, mas sente que o número de pessoas diminui aos poucos. Foram a algum lugar. 

– Onde estamos? Como vamos lá para dentro?

Ninguém responde.

As horas passam sem que encontre uma porta. O próprio portão cinza não parece existir mais. Mesmo assim, há menos homens do que havia antes. Alguns cachorros passam a circular com ele, animais insólitos. Latem, cheiram, tomam de assalto os pedaços pelos quais anda. Passa a se mover com passos mais curtos. São pequenos, olham-no de baixo para cima, colocam suas patas sujas em seus pés, tentam alcançar suas canelas. Desse jeito, jamais sairá dali. Distraído, não percebe, mas é noite. Decide encostar nas paredes para dormir. Quando suas pernas esticam, os cães abandonam-no, aos poucos, e somem, de repente.

Dorme com facilidade, o chão lhe parece uma cama, e, quando desperta, já está sob a luz do sol. Homens de calça e casaco, alguns com dois casacos, estão de volta ao pátio. Não sabe dizer se são os mesmos de ontem, talvez sejam. Se forem novos no pátio, torna-se o mais velho. Podem lhe perguntar qualquer coisa. Não saberá responder. Ainda procura a porta para o lado de dentro. Lembra-se dos cachorros, mas não vê nenhum. Houve mesmo cães? Eram pequenos, dourados, eram vários, ou talvez fosse um só, que se movia muito rápido debaixo dele. Não sabe dizer. Começa a sentir fome.

Não parece que há horas, que há tempo, como se entende por tempo, dentro do pátio. Há dia e noite. É dia, ainda. Ouve uma voz:

– Onde estamos? Como vamos lá para dentro?

Não responde. Não sabe a resposta.

Parece haver um caminho, entretanto. Como no dia anterior, homens vão sumindo. Ficam parados, encostam nas paredes. Dali, não se os vê em outro lugar. Decide testar o mesmo, apesar de ter passado horas dormindo naquele mesmo lugar, naquela mesma parede. Durante o dia, o efeito deve ser outro.

Encosta-se no lado esquerdo, considerando-se o portão como referência. Mas acredita que o portão mudou de lugar, talvez tenha ido para a parede do lado. Faz o que viu no dia anterior. Recosta-se, perna esquerda levemente erguida, deixando a sola encostar na parede, enquanto o outro pé permanece no chão. Um homem chega ao seu lado e faz o mesmo. Depois de alguns minutos, um terceiro se junta. De súbito, são dúzias de homens, de calça e casaco, encostados, pé esquerdo levemente erguido com a sola na parede e o outro totalmente no chão. Os demais observam. Talvez lhes falte coragem, em todo e qualquer grupo haverá dissidentes.

Os homens recostados na parede parecem ter encontrado seu teto. São muitos, enquanto no pátio estão alguns outros. Se houve algum intercâmbio entre eles, não foi possível notar. De onde está, são absolutamente idênticos. Aos poucos, as paredes esvaziam. Não é possível dizer se os homens entram, se há alguma porta por trás, ou se, na verdade, não havia tantos quanto se imaginava. A distância engana. Na maior parte do tempo, manteve o rosto voltado para o chão, os olhos em seus próprios pés, refletindo sobre as botas que usava. Grandes demais, sem sentido para essa época do ano. Quando finalmente olhou para frente, mirou o pátio vazio, a parede vazia, o sol posto, a cor da noite como se saísse de um lustre. Escorregou até o chão e deitou-se. Deveria dormir.

Imóvel, no corredor estreito, sob luzes alternadas, aguarda. Passam por ali; passam cães também, cheiram-no, quase o reconhecem, seguem em frente. Não ameaça mover-se. De calça e casaco, faz calor. Protege-se. Sua mãe o abraça, depois seu pai. Agradecem-lhe. Obrigado, meu filho, obrigado. O corredor se estreita, aperta-lhe, seus pais não conseguem dividir o espaço com ele, os três são comprimidos e a única solução é virarem um só. Aceita. Acorda.

Abre os olhos e, com dores no pescoço, percebe o pátio sob a luz do dia. De novo homens, calça e casaco, menos do que no dia anterior, andam por ali. É o único encostado e decide que ficará assim. Já não sente mais fome. Tampouco cansaço. Apenas permite que o tempo passe. Homens aparecem e somem, a luz do sol é constante. Não há mais cachorros. Ninguém se juntou a ele. Teve a parede para si.

– Onde estamos? Como vamos lá para dentro?

De novo essa pergunta, mas não há ninguém por perto. Percebe que foi dirigida a outro, no meio do pátio, perto do portão cinza, que agora está à sua frente. Menos pessoas no pátio hoje. Não responde porque ainda não sabe o que responder. Vira noite e percebe-se, mais uma vez, sozinho.

Ainda é escuro quando um homem de barba branca toca-lhe o ombro. Não sabe em que ponto da noite está, mas estava dormindo. Sem emoção, ergue os olhos e não fala nada. O homem mira-o de cima, parece mais alto que as paredes.

– O senhor não quer sair daqui? – pergunta-lhe.

Não sabe o que responder e, por coerência, não responde.

– O senhor não quer sair daqui? – repete.

Forçado a pensar sobre a questão, percebe que não se importa. Poderia sair, poderia ficar.

– Não sei. A parede tem certo conforto. Fico sozinho à noite. Não chove nunca, as temperaturas de dia e de noite se mantêm constantes, os homens se parecem comigo. Você sairia daqui?

O homem de pé não espera o fim da resposta, vira-se, anda, e, quando chega ao centro do pátio, não pode mais ser visto da parede, provavelmente por obra de alguma regra física ou geométrica, por coerência de angulação. Ele fecha os olhos novamente e espera abri-los apenas quando sentir o primeiro feixe de luz solar.

Quando acorda no dia seguinte, encontra o pátio vazio. A porta cinza está completamente aberta do outro lado, agora ao alcance de poucos passos. Sentado, observa quem passa do lado de fora. Carros, cães. Faz sol. Permanece parado, decide. Não há homens, não há cães. Ele não se levanta. Chega à noite e fecha os olhos. Aguarda a luz do dia seguinte.

Imóvel, no corredor estreito, sob luzes alternadas, aguarda. Passam por ali; passam cães também, cheiram-no, quase o reconhecem, seguem em frente. Não ameaça mover-se. Quando abre os olhos, está deitado sobre um carpete, o rosto virado para um dos lados. Talvez seja seu rosto.

Alguém se aproxima, tenta levantá-lo, ergue-o. Ele até consegue se sustentar, mas com a ajuda de outros braços, apenas.

Sozinho, cai no chão por completo, estica-se e decide que ficará ali até que alguém venha, levante-o, coloque-o contra uma parede e, mesmo de casaco, calça, botas, mesmo de olhos fechados, reconheça-o e diga-lhe, finalmente, o que deve fazer.

 

 

 

 

 


Verão

 


I.          I.                A minha piscina

É dezembro. O sol bate verticalmente na piscina, como uma flecha que se espalha pelo chão. Após meses inúteis, sirvo. Férias escolares. Crianças e aqueles que ainda não sabem se são crianças, adolescentes ou adultos chegam. A piscina é o seu lugar.

Entram de manhã, almoçam no restaurante anexo ao espaço, e, com os dedos enrugados de água clorada, mergulham as mãos em batatas-fritas, quibes e demais frituras imersas no óleo do dia anterior, do mês anterior – não sei, do verão anterior – para logo depois passá-las nas sungas e bermudas, brilhando-as, e retornar à piscina. Normalmente, fica a maioria até o meio da tarde, por volta das três, quando o sol se esconde atrás de um dos prédios que cerca a área.

Sou guarda-vidas e admito que a mudança de nome da minha profissão faz sentido. Gradualmente, deixei de ser chamado de “salva-vidas”, que deu lugar a “guardião de piscina”. Mais honesto. Abro e fecho os chapéus nas mesas, limpo-as, arrumo as cadeiras, organizo as espreguiçadeiras e, ao final, me despeço jogando cloro na piscina. Um guardião da piscina.

Dias agitados, funções organizacionais, lidar com o caos. Mentira.

Passo o dia sob uma cadeira branca, suspensa por longa perna de madeira também branca, que me coloca no ponto mais alto. De lá, apuro o que acontece nas quatro piscinas – uma para bebês; outra para crianças de até sete ou oito anos; uma intermediária; e outra semiolímpica, utilizada, na maior parte do tempo, para aulas de natação. Durante a semana, apenas a última recebe visitantes. A do meio até tem público pela manhã – velhas fazendo hidroginástica (devem urinar toda a piscina sem perceber) –, mas é só. O triplo de pessoas me visita no verão, e eu prefiro assim. Não há considerável aumento de trabalho. Mas há o que fazer.

Ocupa-me o tempo.

II.              Chegada

Em novembro, vejo-os pela primeira vez.

Distante, assumo que têm perto dos vinte anos, talvez menos. Não mais. Ela, apesar disso, é mulher. Seu biquini azul é coberto na parte debaixo por uma canga branca, mas não transparente, com alguns bordados também azuis em formato de objetos marítimos. Morena, com duas espinhas, uma em cada bochecha, e um olhar devoto. Descrevo-a pela memória, e não pela primeira impressão.

Ao seu lado, o rapaz que transformei em Tadzio. Alto, loiro, nariz fino e pontiagudo, boca delineada e um corpo sem academia, mas como se tivesse sido esculpido lá. De bermuda larga, não como um surfista desleixado, mas como um quem nunca precisou da moda. Usava chinelos. Éramos três procurando formas de ocupação.

Naquele dia havia um evento infantil à tarde na piscina. Quantos jogos as crianças têm capacidade de inventar; na minha época era só Marcopolo. Invejo-os. Seus dias tomam o tempo de um minuto.

Partiram perto das cinco. Biquini azul, canga, sorriso. Chinelo de dedo, bermuda larga, cabelo emaranhado.

Guardei-os comigo.

III.            O outro dia

Demorei para vê-los de novo. Alguns dias se passaram e outros vieram.

Alguns mais velhos, outros mais novos, poucos na idade deles. Depois de sentir falta, pensei que não voltariam jamais. Voltaram em janeiro.

Diferentemente da primeira vez, foram um dos primeiros a entrar. Estranhei. Não teriam nada melhor para fazer tão cedo?

Deixaram suas bolsas em uma mesa perto da semiolímpica, que guardava uma de suas raias para banhistas. Ouvi o barulho da água. Mergulharam num salto. Pararam no ponto da piscina que me escapava, o canto inferior direito do retângulo, escondido por uma elevação entre as águas.

 Não os vi, mas ouvi. Gargalhavam, jogavam água um no outro, batiam na superfície com os braços. Às vezes, ouvia o barulho de mergulhos e indagava o que escondiam debaixo d’água. Aliviava-me o som dos corpos emergindo.

Ficaram em silêncio. Imaginei o que podia. Quando não mais aguentei, decidi levantar e fingir uma ronda.

Logo que desci, vi-os deixando a água. Ele, tríceps marcado e as mechas do cabelo molhado encostando a nuca. Ela o seguiu. Para manter o disfarce, andei.

Já do outro lado, perto das suas mesas, olhei-os deitados nas espreguiçadeiras, olhos fechados para o sol. Poderia detê-los com o olhar. Quase o fiz: pés magros, tornozelos com fitas de pano, pelos nas canelas.

Respeitei-os.

Após o almoço, regressaram. Dessa vez, planejei melhor. De manhã haviam ficado duas horas — agora, ficariam mais uma.

Na extremidade oposta, vi uma espécie de lixo jogado no chão. Alguma coisa vermelha. Talvez uma lata de Coca Cola amassada, ou uma embalagem de um picolé gordo. Devo limpar. Levantei-me.

Passei à esquerda. Hesitei. Cruzamos os olhos. Cheguei a pensar que cochichavam sobre mim. Segui corado.

Era mesmo uma embalagem de picolé vermelha – me inclinei para pegar e lambuzei as mãos. Limpando-as uma na outra, andei.

Em vez de voltar, contornei a piscina. Eles tinham dois lados.

Chegando perto, faziam silêncio. Olhos mutuamente detidos. Ele, encostado na parede. Ela, à frente. Aproximavam suas mãos e as encaixavam. Seus cotovelos dobravam, atraindo-se apenas para, antes de se encostarem, esticarem os braços e repelirem-se. Repetiram-se no movimento.

Tornei-me um deles: passos para trás e para frente.

Quando uma boca se aproximou da outra, não resisti. Encarei. Os lábios finos de Tadzio, os lábios grossos dela. Um encaixe natural.

– Tá olhando o que?

Parado, pisquei. Um segundo. Dois. Minhas pernas não obedeciam.

Desloquei meus olhos para a piscina do meio. Crianças e velhas. Caminhei de forma inconsciente – quem se mexia era o chão.

Já os tendo ultrapassado, senti-o virar sua cabeça para mim, mexer a boca. Talvez tenha gritado – mas eu era surdo.

Torci para que não levantasse da piscina – aquele Tadzio –, corresse estabanado, cutucasse-me nas costas e, olhando-me de frente, segurando no colarinho da minha camisa, me perguntasse:

– “Ein! Tá olhando o que? Porque?”

Por que não o fez?

Cadeira escalada. Salvo.

Embaixo, hidroginástica. Ao lado, crianças.

Na frente, um novo casal na catraca.

Em seu canto, Tadzio e ela desapareceram.

Clausura

Clausura


Clausura

Acordo, abro os olhos e me vejo deitado na mesma cama de solteiro em que durmo desde os quatorze anos. Tenho trinta.

Hoje é segunda-feira. Trabalho de casa.

São aproximadamente dez horas da manhã – pelo que, suponho, minha mãe e meu pai ainda estão aqui. Meu pai ficará o dia todo. Foi aposentado de forma compulsória pelo mercado de trabalho há vinte anos. Desde então, dividimos a rotina. Hoje, na maior parte do tempo, é como se fôssemos dois homens que dividem um apartamento – cada um no seu canto. Falamos pouco.

Minha mãe está no seu último ano de trabalho antes de se aposentar. Costuma sair de casa por volta do meio-dia e retornar às oito. Tornou-se funcionária pública quando percebeu que, de fato, meu pai permaneceria aposentado – como um produto cujo consumo se torna inapropriado antes mesmo do fim da validade.

Ouço as vozes na sala e evito sair. Prefiro, na maioria dos dias, esperar a hora de minha mãe rumar ao trabalho. É também o horário em que meu pai costuma ir à academia.

Trinta anos. Tentei várias coisas. Desisti de todas. Entregar-se é aceitar a possibilidade de fracasso. Prefiro viver como se tudo fosse um grande teste. Assim, quando alguém me pergunta: “mas o que você faz?”, respondo: “algumas coisas” – o que dá no mesmo que “nenhuma”. O meu éden é a inexistência de pretensão. Se fosse uma árvore, pegaria uma tesoura e me podaria – seria menos, mas manteria a forma: gosto do que sinto, o problema é a intensidade.

Mas como evitar? Quando nasci, fiquei meses internado, respirando por aparelhos debaixo de tantos olhos alheios – que, na infância, se condensaram nos olhos da minha mãe.

Com o tempo, isso mudou. Os olhos da minha mãe deixaram de ser os dos outros e os olhos dos outros é que passaram a ser, todos, os olhos da minha mãe.

Ouço a porta bater e sei que foram embora, em dupla. Levanto-me e vou à cozinha. Após preparar com calma o café e o relógio marcar meio-dia e quinze, sento-me no sofá da sala e abro o computador. Sou professor nômade, recém-doutor em Direito. Pulo de faculdade privada em faculdade privada, dou algumas aulas por semana, e complemento a renda com pesquisa contratada. Salário insuficiente para sair de casa e manter o padrão de classe média-alta que me acostumei, já que não tenho com quem dividir. Durante a pandemia, por dois anos, morei com Clara.

A casa é deles. À minha frente, meia dúzia de fotos da nossa família. Sempre nós três, como se os dois só tivessem passado a existir, como um par, após meu nascimento. Foi quase isso, conheceram-se em março e em julho eu estava por vir. Os sorrisos dos meus pais, os meus sorrisos. Irrecuperáveis. Uma harmonia propositada, todos os espaços eram para três. Além das fotos, meu pai deixa vestígios de que o ambiente é seu. Um cinzeiro, jogado na mesa de jantar, e uma tangerina, ao lado, que o espera no retorno da esteira. O odor da tangerina com o cigarro é repelente. Uma acidez queimada que não cheira mal, mas dói.

Por volta de uma e meia, eu, com o computador nas coxas, viro à esquerda e o vejo chegar. Suado, abre a porta, senta-se na mesa da sala, acende um cigarro e come a tangerina. Nesses momentos, interrompo tudo. Vou ao quarto e, por alguns minutos, espero sentado. Quando o ouço entrar no banho, volto à sala.

A casa se fragmenta.

Gosto das tardes. Meu pai se isola no quarto, cansado após malhar, e se absorve nos vídeos do youtube. Vê alguns episódios antigos dos Caçadores de Mito, outros tantos canais de receitas e, ocasionalmente, cede aos modismos do tempo e assiste a algum canal mais à direita criticando o STF. Nesses momentos, o volume alto invade a sala e eu, cuidadosamente, levanto-me e fecho a porta de seu quarto por fora sob a justificativa de que o cheiro de cigarro me faz espirrar. Com a sala só para mim, arrisco colocar alguma música enquanto trabalho. Como eu e meu pai temos gostos musicais diferentes, aproveito a porta fechada para ouvir o que quero no maior volume.

Tenho a sensação de que, mesmo se a porta tivesse aberta, os nossos sons saberiam não se misturar.

De vez em quando, meu pai aparece e me pede ajuda com alguma funcionalidade do seu celular. Comprou um Samsung de nova geração e, como tempo livre não lhe falta, testa todos seus recursos inúteis.

 –Filho, por que aparece essa notificação aqui?

Não sei, pai! Tenho vontade de gritar que não sei – é óbvio que não sei – mas me contenho. Respondo apenas: “não sei, papai, estou ocupado agora”.

Mesmo assim, ouço-me dizer: “gordo, fumante, mais de setenta anos e sem trabalho – ele vai morrer em breve e você o trata assim!”. E o faço vivendo na casa dele. Paro tudo e vou ao quarto. Digo que vi no google como se resolve seu problema e tento ajudar. Normalmente consigo. Nunca é difícil. Passo o telefone de volta para aquelas mãos que me seguraram primeiro.

“Obrigado filhote!”.

De nada, pai.

Vejo que o relógio já marca dezessete horas. Estou atrasado.

Posterguei o início do dia, interrompi-o pelo meu pai e, agora, devo correr contra o tempo para terminar o que me cabe até minha mãe regressar. Ela chega e a sala deixa de ser minha. Da mesa de jantar, ignora meu foco e me dirige perguntas que podem esperar: “filho, você vai à UERJ amanhã?” (pelo que eu sei, fui nas últimas dez terças...); “filho, você lanchou?” (não, mãe. Deixei a lancheira em casa e passei fome no recreio!); “filho, seu pai cozinhou o que para vocês?” (não pode perguntar para ele?). “Sim, vou”; “Sim, mãe”; “Macarrão com carne moída, mãe”. Finalmente respondida, ela já pode dirigir a sua bateria de perguntas ao meu pai. Em vez de fazê-las com ele no quarto, escolhe gritar da sala. Tenho vontade de dizer: “se quer usar o sofá, é só pedir”.

Mas a casa, além do meu pai, é dela.

Quando novo, esperava mamãe ansioso. Queria aquelas perguntas para expurgar o silêncio do meu pai. Hoje, torço para que ela se atrase. Quero que o silêncio dure um pouco mais.

Consigo acabar a tempo. São dez para as oito e minha mãe ainda não chegou.

Vou à cozinha, monto um sanduíche (pão, queijo minas, tomate, alface) e, nesse meio tempo, minha mãe abre a porta.

Sem trabalho a fazer, as perguntas se tornam pertinentes: “Vou sim, mãe. Amanhã dou aula de obrigações solidárias!”; “Não lanchei, mãe. Estava sem fome...”; “Cozinhou, claro. O clássico macarrão com carne moída”. Respondo-as todas, com ênfase e sorrisos. Talvez a diferença entre os quinze e os trinta seja apenas o trabalho. Sem trabalho, é possível ser o mesmo.

Fico um pouco na sala, mordendo o sanduíche, e percebo que também faço perguntas no mesmo campo semântico – “conseguiu almoçar com calma?”; “tinha muito trabalho lá hoje?”. Será que ela também sente raiva de mim e responde, mentalmente, “o que esse garoto quer saber tanto do meu dia? A mãe sou eu!”. Não sei. Por suas respostas, parece que não. Acho que gosta do tipo de filho que sou.

Perto das nove, já sem mais o que dizer, ela liga a televisão para assistir àquela série sobre a família real britânica. Em resposta, levanto-me. Levo o prato à cozinha. Lavo-o. Bebo um gole de mate direto na garrafa. Dou boa noite. Volto ao quarto.

Ergo o edredom, os pés escapam para fora de sua extensão e ligo a televisão. Nove horas já é um bom horário para dormir – amanhã acordo às seis. Penso em ler por meia hora antes de efetivamente fechar os olhos, mas o livro é Moby Dick, que exige certa energia para controlar os olhos nas longas descrições que o ocupam. Gosto de ler sobre o capitão Ahab, pouco me interessa a baleia. Há quem leia Moby Dick pela baleia e há quem leia por Ahab. Talvez existam aqueles que leem pelos dois.

Ligo a televisão para pegar no sono assistindo a algum esporte, e, quando meus olhos estão para fechar, desligo. Da minha cama, vejo a luz acesa no quarto dos meus pais: ainda estão acordados. O que fazem?

Olhos fechados.

Em breve, abrirão novamente. No mesmo lugar.

Na Praia

  Na Praia Chego ao Sul da França, em Nice, e logo me assusto: o caminho para o mar é feito de pedras, pedras grandes, pedras esteticament...