Clausura

Clausura


Clausura

Acordo, abro os olhos e me vejo deitado na mesma cama de solteiro em que durmo desde os quatorze anos. Tenho trinta.

Hoje é segunda-feira. Trabalho de casa.

São aproximadamente dez horas da manhã – pelo que, suponho, minha mãe e meu pai ainda estão aqui. Meu pai ficará o dia todo. Foi aposentado de forma compulsória pelo mercado de trabalho há vinte anos. Desde então, dividimos a rotina. Hoje, na maior parte do tempo, é como se fôssemos dois homens que dividem um apartamento – cada um no seu canto. Falamos pouco.

Minha mãe está no seu último ano de trabalho antes de se aposentar. Costuma sair de casa por volta do meio-dia e retornar às oito. Tornou-se funcionária pública quando percebeu que, de fato, meu pai permaneceria aposentado – como um produto cujo consumo se torna inapropriado antes mesmo do fim da validade.

Ouço as vozes na sala e evito sair. Prefiro, na maioria dos dias, esperar a hora de minha mãe rumar ao trabalho. É também o horário em que meu pai costuma ir à academia.

Trinta anos. Tentei várias coisas. Desisti de todas. Entregar-se é aceitar a possibilidade de fracasso. Prefiro viver como se tudo fosse um grande teste. Assim, quando alguém me pergunta: “mas o que você faz?”, respondo: “algumas coisas” – o que dá no mesmo que “nenhuma”. O meu éden é a inexistência de pretensão. Se fosse uma árvore, pegaria uma tesoura e me podaria – seria menos, mas manteria a forma: gosto do que sinto, o problema é a intensidade.

Mas como evitar? Quando nasci, fiquei meses internado, respirando por aparelhos debaixo de tantos olhos alheios – que, na infância, se condensaram nos olhos da minha mãe.

Com o tempo, isso mudou. Os olhos da minha mãe deixaram de ser os dos outros e os olhos dos outros é que passaram a ser, todos, os olhos da minha mãe.

Ouço a porta bater e sei que foram embora, em dupla. Levanto-me e vou à cozinha. Após preparar com calma o café e o relógio marcar meio-dia e quinze, sento-me no sofá da sala e abro o computador. Sou professor nômade, recém-doutor em Direito. Pulo de faculdade privada em faculdade privada, dou algumas aulas por semana, e complemento a renda com pesquisa contratada. Salário insuficiente para sair de casa e manter o padrão de classe média-alta que me acostumei, já que não tenho com quem dividir. Durante a pandemia, por dois anos, morei com Clara.

A casa é deles. À minha frente, meia dúzia de fotos da nossa família. Sempre nós três, como se os dois só tivessem passado a existir, como um par, após meu nascimento. Foi quase isso, conheceram-se em março e em julho eu estava por vir. Os sorrisos dos meus pais, os meus sorrisos. Irrecuperáveis. Uma harmonia propositada, todos os espaços eram para três. Além das fotos, meu pai deixa vestígios de que o ambiente é seu. Um cinzeiro, jogado na mesa de jantar, e uma tangerina, ao lado, que o espera no retorno da esteira. O odor da tangerina com o cigarro é repelente. Uma acidez queimada que não cheira mal, mas dói.

Por volta de uma e meia, eu, com o computador nas coxas, viro à esquerda e o vejo chegar. Suado, abre a porta, senta-se na mesa da sala, acende um cigarro e come a tangerina. Nesses momentos, interrompo tudo. Vou ao quarto e, por alguns minutos, espero sentado. Quando o ouço entrar no banho, volto à sala.

A casa se fragmenta.

Gosto das tardes. Meu pai se isola no quarto, cansado após malhar, e se absorve nos vídeos do youtube. Vê alguns episódios antigos dos Caçadores de Mito, outros tantos canais de receitas e, ocasionalmente, cede aos modismos do tempo e assiste a algum canal mais à direita criticando o STF. Nesses momentos, o volume alto invade a sala e eu, cuidadosamente, levanto-me e fecho a porta de seu quarto por fora sob a justificativa de que o cheiro de cigarro me faz espirrar. Com a sala só para mim, arrisco colocar alguma música enquanto trabalho. Como eu e meu pai temos gostos musicais diferentes, aproveito a porta fechada para ouvir o que quero no maior volume.

Tenho a sensação de que, mesmo se a porta tivesse aberta, os nossos sons saberiam não se misturar.

De vez em quando, meu pai aparece e me pede ajuda com alguma funcionalidade do seu celular. Comprou um Samsung de nova geração e, como tempo livre não lhe falta, testa todos seus recursos inúteis.

 –Filho, por que aparece essa notificação aqui?

Não sei, pai! Tenho vontade de gritar que não sei – é óbvio que não sei – mas me contenho. Respondo apenas: “não sei, papai, estou ocupado agora”.

Mesmo assim, ouço-me dizer: “gordo, fumante, mais de setenta anos e sem trabalho – ele vai morrer em breve e você o trata assim!”. E o faço vivendo na casa dele. Paro tudo e vou ao quarto. Digo que vi no google como se resolve seu problema e tento ajudar. Normalmente consigo. Nunca é difícil. Passo o telefone de volta para aquelas mãos que me seguraram primeiro.

“Obrigado filhote!”.

De nada, pai.

Vejo que o relógio já marca dezessete horas. Estou atrasado.

Posterguei o início do dia, interrompi-o pelo meu pai e, agora, devo correr contra o tempo para terminar o que me cabe até minha mãe regressar. Ela chega e a sala deixa de ser minha. Da mesa de jantar, ignora meu foco e me dirige perguntas que podem esperar: “filho, você vai à UERJ amanhã?” (pelo que eu sei, fui nas últimas dez terças...); “filho, você lanchou?” (não, mãe. Deixei a lancheira em casa e passei fome no recreio!); “filho, seu pai cozinhou o que para vocês?” (não pode perguntar para ele?). “Sim, vou”; “Sim, mãe”; “Macarrão com carne moída, mãe”. Finalmente respondida, ela já pode dirigir a sua bateria de perguntas ao meu pai. Em vez de fazê-las com ele no quarto, escolhe gritar da sala. Tenho vontade de dizer: “se quer usar o sofá, é só pedir”.

Mas a casa, além do meu pai, é dela.

Quando novo, esperava mamãe ansioso. Queria aquelas perguntas para expurgar o silêncio do meu pai. Hoje, torço para que ela se atrase. Quero que o silêncio dure um pouco mais.

Consigo acabar a tempo. São dez para as oito e minha mãe ainda não chegou.

Vou à cozinha, monto um sanduíche (pão, queijo minas, tomate, alface) e, nesse meio tempo, minha mãe abre a porta.

Sem trabalho a fazer, as perguntas se tornam pertinentes: “Vou sim, mãe. Amanhã dou aula de obrigações solidárias!”; “Não lanchei, mãe. Estava sem fome...”; “Cozinhou, claro. O clássico macarrão com carne moída”. Respondo-as todas, com ênfase e sorrisos. Talvez a diferença entre os quinze e os trinta seja apenas o trabalho. Sem trabalho, é possível ser o mesmo.

Fico um pouco na sala, mordendo o sanduíche, e percebo que também faço perguntas no mesmo campo semântico – “conseguiu almoçar com calma?”; “tinha muito trabalho lá hoje?”. Será que ela também sente raiva de mim e responde, mentalmente, “o que esse garoto quer saber tanto do meu dia? A mãe sou eu!”. Não sei. Por suas respostas, parece que não. Acho que gosta do tipo de filho que sou.

Perto das nove, já sem mais o que dizer, ela liga a televisão para assistir àquela série sobre a família real britânica. Em resposta, levanto-me. Levo o prato à cozinha. Lavo-o. Bebo um gole de mate direto na garrafa. Dou boa noite. Volto ao quarto.

Ergo o edredom, os pés escapam para fora de sua extensão e ligo a televisão. Nove horas já é um bom horário para dormir – amanhã acordo às seis. Penso em ler por meia hora antes de efetivamente fechar os olhos, mas o livro é Moby Dick, que exige certa energia para controlar os olhos nas longas descrições que o ocupam. Gosto de ler sobre o capitão Ahab, pouco me interessa a baleia. Há quem leia Moby Dick pela baleia e há quem leia por Ahab. Talvez existam aqueles que leem pelos dois.

Ligo a televisão para pegar no sono assistindo a algum esporte, e, quando meus olhos estão para fechar, desligo. Da minha cama, vejo a luz acesa no quarto dos meus pais: ainda estão acordados. O que fazem?

Olhos fechados.

Em breve, abrirão novamente. No mesmo lugar.

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